Monday, September 15, 2008

 

SENTIDO, PROPÓSITO E PSIQUIATRIA

“Qual o sentido de fazer seja o que for sem uma boa razão para o fazer?” foi uma dúvida que me acompanhou ao longo da adolescência. Mais tarde, tacitamente, estabeleci para mim que não fazia qualquer sentido. Esta premissa foi quase sempre evocada nas minhas escolhas, nomeadamente na decisão de optar pela Psiquiatria. Subjacente à escolha da doença mental como meu objecto de trabalho e estudo, está a convicção de que a “loucura” não representa um estado alternativo à sanidade mental, mas sim a ausência desta. Ao alienar-se o humano ultrapassa e esgota as suas reservas, com o sofrimento e a angústia que a lucidez restante lhe permite, como é demonstrado no texto de Nijinsky, escrito pouco tempo antes de adoecer: “As pessoas tinham ido ali para se distrair e julgavam que as minhas danças iam ser divertidas. Foram aterradoras e meti-lhes tanto medo que os espectadores imaginaram que queria matá-los. Não o fiz. Mas sentia, eu que os amava a todos, que não era amado por ninguém - o que não deixou de actuar sobre os meus nervos, de perturbá-los, ao mesmo tempo que a minha excitação se comunicava à assistência. Tinha-lhes desagradado e eles levantavam-se já para sair quando, de súbito, pus-me a executar uma dança transbordante de alegria que lhes restituiu o bom humor... Tinha dançado mal. Graças à beleza dos meus passos não se aperceberam de que eu dançara mal, mas a verdade é que caí fora do tempo da música.” Na Medicina é comum reverter estados mórbidos, não constituindo tal razão para espanto. Todavia, e em clara contradição, a nossa herança cultural habituou-nos a considerar a “loucura” como uma viagem sem regresso. Porque acredito no Homem, nos seus valores, no Saber e na Ciência, acredito na reversibilidade da doença mental e na Psiquiatria. Os Países são como as pessoas. Adoecem. Portugal padece dum estado ango-depressivo e denota uma perturbação da sua personalidade onde os traços narcísicos, borderline, histriónicos, paranóides, antisociais, maníacos, depressivos e etc e tal abundam. Esta é a má notícia A boa notícia é que tem cura.



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